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As várias faces da ARTE!

“É possível vislumbrar as várias faces de uma história utilizando-se da riqueza dos sentidos. Escrever, ver e ouvir! Imagens, músicas e letras oferecem uma sábia combinação no mundo visível e palpável das coisas do Universo. Como escritora, minha figura física e abstrata ganha cenário representativo em contos, poemas, livros e demais escritos. Como observadora, retiro ainda imagens do mundo à minha volta no intuito de trazer a imaginação mais próxima da realidade.

E o que seria a realidade? O visível ou o pensado?

Real é tudo e somente aquilo que queremos ser, ver, sentir e crer!”

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φ….poderíamos passar noites e dias a divagar pelos acontecimentos da vida! Refletir sobre os costumes, os povos, os pensamentos, os instantes, as sementes, os olhares e o amanhã. Poderíamos passar todo o tempo a fantasiar sobre situações não cabíveis ao toque, sobre o erro cometido em um passado próximo ou distante, sobre os desfechos intangíveis ou frágeis para um melhor entendimento, sobre a fragilidade da existência e sobre o áspero suspense do “vir depois”. Poderíamos ver a vida passar de forma lenta e calculada, como bloqueio ao exibicionismo da real verdade ao mundo externo. Poderíamos ser como todos os outros, e como os outros, assim fazer o que todos os outros fazem, sem ao menos uma autêntica verdade em tudo dito, visto e falado. Poderíamos refletir sobre o humor oscilante do presente, sobre a sedutora e estúpida morte e sobre a brevidade da felicidade, que nos “engana”, fazendo-nos sorrir sempre em busca de um novo nascer do sol.

Será valer a pena viver e ver tudo morrer?

Ou

Será valer a pena viver para assim tudo ver nascer?

Sendo a morte a única idéia certa, que seja esta o certo e o único limite.

Crie! Reinvente-se!

A felicidade da brevidade é a grande idéia! É preciso mergulhar de cabeça no tempo, e no segundo dos ponteiros, enriquecer-se. É preciso usar o relógio como circulação sanguínea em movimento na direção das vontades do cérebro e do próprio corpo. É preciso obedecer as ordens dos órgãos, bem como os ditames de nossa justa e verdadeira alma. É preciso que sejamos o que somos, e apenas aquilo o que somos e queremos ser. E no contar dos ponteiros, é preciso usufruir da sabedoria do enigmático tempo. Há sempre um presente no passado, presente e futuro. Um, dois, três…passado, presente e futuro. Há ainda um quarto momento: o Seu. E neste Seu, quando os ventos já ouvidos falarem, escute-os, mas de forma relativa e atenta, pois a destruição é parte da noite, bem como do dia que assim irrompe.  É preciso assim construir bagagem quando a certa destruição estiver ávida para o seu desfecho e impetuoso deleite: sugar. E é necessário guardar e resguardar nos bolsos, no punho das mãos, no fecho dos botões, tudo o possível quando se falam em saudades e memórias. E é necessário extrair do já vivido um rico suco leite, uma idéia, uma inspiração, um aprendizado. Mas, como tudo exposto é vivo ou morto, vislumbre a face dos dois lados da moeda, e construa. É preciso jogar o lixo para vácuo da Escuridão, sem o mínimo vestígio de luz que possa clarear o que já se consumiu no esquecimento de um momento. E quando as memórias, quando não de forma afirmativa,  ousarem a perturbar o decolar do vem e vai da lua e sol, desfrute! Brinde os sonhos! Tudo em nome da evolução e nunca da saudação do que poderia ter sido e que não foi. Perpetue!

Jamais se arrependa. Nunca viva o “se”.

É preciso aceitar o que já partiu na jornada.

É preciso agir no AGORA.

É preciso DIFERENCIAR-SE!

No anseio da plenitude das diferenças, é preciso fazer valer-se.

É preciso espantar o medo ou qualquer receio. Reiventar-se!

Cuspa no rosto dos cretinos, hipócritas, covardes. Que as páginas sejam rasgadas e as roupas, surrupiadas!

Fique nu e se exiba para toda a rua, para todo o povo!

Que o medo seja o passatempo dos desafortunados de alma, dos preguiçosos de vida, dos robôs entre tantos na rua, dos “obedientes” aos ditames da sociedade, que na realidade, mal sabe quem é ou que irá ser.

Anarquize com sabedoria, a fim de driblar inúteis anseios,

Brinde ao caos da desorganização e ponha fim ao teu mundinho ensinado, mas tão pouco vivo dentro de você.

Convide a todos para um baile de máscaras, e os desnude frente ao grande público,

Assuma o palco de seu teatro, e torne-se o maior protagonista,

Olhe-se diante aos espelhos, contemple os reflexos da garantia, infinitas possibilidades a mais e conquiste-se,

É possível já vislumbrar os olhares como esmeraldas, neste tablado iluminado de uma residência criada por você.

É preciso vestir-se de um Destino!

Você, na realidade, brilha!

Você é uma estrela.

Priscila Carenzio,  escritora

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LIVRO- O REMETENTE

O REMETENTE

Em meio a um ambiente atemporal, a bela história de “O REMETENTE” narra a vida de 25 personagens envoltos em um cenário misterioso, mítico, rude, ao mesmo que melancólico e poético. Ao som de uma valsa, o livro diferencia-se ao apresentar a trajetória de duas protagonistas: mulheres em busca de um ideal. O surrealismo brinda e oferece ao leitor uma profunda reflexão sobre Deus, Vida, Morte ou qualquer essência que enleva a vida à sua primeira categoria.

Os 111 capítulos revelam um drama familiar, que se transforma com a chegada de emblemáticos visitantes na célebre mansão Villago. O mistério desenrola-se do início ao fim, trazendo um desfecho incrível e surpreendente na vida daquela empregada, do pai autoritário, das duas filhas e do filho morto.

Ao escrever as 400 páginas de “O REMETENTE”, dediquei-me a decifrar com cautela e pluralismo interpretativo, os mistérios entre o céu e a terra. Será preciso muita atenção do leitor, pois qualquer detalhe é sinônimo de grande revelação.

Existe um Deus? Quem é a Morte? O que o passado pode trazer para o hoje? Existem fantasmas ávidos pela nossa procura? O que é o fanatismo religioso? O que são os sonhos? O Amor? E qual seria o fim de tudo isso? O que vem a ser o amor-próprio? Os sinais? Ou ainda, a entrega, a resignação? Porque morremos e porque vivemos? E principalmente, porque é tão frágil a existência: a imperfeição não é somente humana, mas também Divina. Deuses e Homens são iguais em suas fragilidades, pois uns completam os outros, na medida em que se criam, fundem-se e se limitam.

(leia o livro completo clicando nas páginas: “Remetente- parte 1″, “Remetente- parte 2″; “Remetente- Final”)

Trecho de “O REMETENTE”:

CAPÍTULO 64(parcial)

Sim, eles estavam lá. O vasto verde dos campos religiosos impeliu o seu governo e fez das sombras seus personagens principais. Era tal presença dotada de um aroma do Universo? Eis aí a dúvida, envolta por resposta que só no mais célebre temporal tardio irromperá.

Os visitantes adentraram no cenário. A mansão continuava estranhamente vazia. Olga sentiu receio de uma provável repulsa do industrial.

CAPÍTULO 60(parcial)

O mundo iluminou-se por momentos. A vontade em se ficar olhando era intensa. Era lindíssimo, sendo educado em um primeiro momento. Incrivelmente sedutor e dono de uma fórmula humana raramente vista. Continha, em se tratando do aspecto físico, uma mescla estranha de infância e maturidade. Em um gesto, parecia ser uma criança indefesa à procura de consolo, em outros, parecia ser um homem feito, dotado de um forte apelo sexual e determinação.

Que incrível! Quem era?

CAPÍTULO 58(parcial)

Deus julgou em seu mundo e assim fez nascer a criatura, vinda de um sol forte de um norte, disposto a clarear e umedecer os campos verdes de um gramado de um cemitério. As tumbas renasceriam, na medida em que o calor do corpo e dos hormônios produziram chamas. O fogo tenderia a se espalhar, forte, decidido, rei e modificador. Que forte mostrava-se a Natureza! As muralhas e fortalezas seriam rendidas, destinas a servir a um sentimento maior. O corpo caminhava lentamente, exibindo a sua destreza em captar os sentidos até mesmo dos ares. As sombras tornavam-se maiores, na medida em que o mistério escondia-se em uma caverna escura e silenciosa. E como haveria de ser difícil entrar por aquela caverna. Como seria necessário uma batalha, um exército, uma arma, para assim se fazer maior e derrotar o que reinava em absoluto lá em cima ditando poder, glória e paixão. A fraqueza do semblante seria inerente a uma expressão forte, ameaçadora. Dois lados para um único. Várias faces em um só encontro. A vida entrando em um tribunal de júri, em um passeio sem volta, em um jogo sem regras, em uma floresta sem luz, em um tabuleiro de xadrez, em um álcool envenenado, em um sonho profundo, em uma alegria única, em um parque florido, em um vício, em um céu estrelado, em uma ponte diante de um rio, em um rio diante de sua correnteza. Diálogos finitos, no entanto,  infinito ao sinal de apenas um comando. Não haveriam príncipes, princesas, duques, condes, leis, normas, e sim, o rei, vivo, robusto, apaixonante. O mundo apaixonava-se. Os livros ganhavam cor. Diversas cores distintas. O cemitério, mais tumbas. Os campos, mais vida. O coração, mais amor, mais entrega, mais renúncia, mais submissão, mais luta, mais obediência, mais liberdade. Mais paixão, muita paixão, carne, corpo, mente e espírito. Era tempo de sugar, de sugar-se. Era tempo de se ter, de ser, de viver por exclusivamente aquilo que se sentia, aquilo que se vivia. Tudo se tornaria possível, ditando ser o impossível como linha de frente de um fraco.

CAPÍTULO 45(parcial)

A velha estava nua, a pele branca, o olhar avermelhado. Os cabelos da mulher, esbranquiçados, longos, longuíssimos, tomavam conta do corpo do menino. O local estava frio.

Olga sentiu um horror pelo estômago.

O fantasma olhava para Olga, vomitava, ao mesmo tempo em que fazia o ato. Exibia a língua e mostrava as genitálias. O garoto, ensagüentado, ria e lambia a velha pausadamente. Ambos construíam uma cena em que pareciam animais dotados de uma sexualidade e ferocidade beirando a orgia nata de um templo demoníaco. Olga lembrou-se das histórias de Lúcifer que sua mãe contava. Ela, então, vislumbrou uma doença praticamente incurável na carne humana.

Olga passou mal. Sentiu vontade de expelir algo pela boca, mas as náuseas não pareciam ser suas, e sim, de outra pessoa. O fósforo apagou-se. A escuridão voltou a tomar conta do local. A respiração parou, dando lugar a uma voz de velha que clamava pelo seu nome.

- “Olga…”!

Esfaquearam-se os sentidos.

Tentou se acalmar. Pediu ajuda a algum tipo de deus na sua inexata definição de crenças. Virou as costas e desceu as escadarias do porão.

-“ Me deixe em paz…me deixe em paz!”- dizia, tentando espantar os espíritos.

Desceu as escadarias rapidamente, ao mesmo tempo em que sentia alguém passando a mão entre os seus cabelos. Uma gélida e áspera mão era a mensageira.

Olga sentia-se sufocada.

Saiu. Bateu a porta, trancando-a. Respirou fundo.

CAPÍTULO 1(integral)

Necessário dizer, ouvir, sentir e escrever. Conclui-se o término de mais um livro. É a hora do chá quente junto à janela da noite. É o momento do retorno ao princípio.

A brisa parece soprar ao sul, trazendo as noites que oferecem mensagens aos espíritos. Vê-se correr ao longe tudo o que se costurou nas vestes do tempo, e as imagens irrompem com sutileza junto ao aroma que venta junto aos pensamentos. Abrem-se as janelas das lembranças e as histórias renascem com magnitude, como paisagens deles e delas farfalhando com os lírios das marcantes memórias. O tom escuro da noite traz os anos que se foram, quando o momento guia ao que jaze, quando as saudades batem às portas.

Talvez tudo se perca na trilha envelhecida pela caminhada repleta de dores e dias de glória. Talvez tudo já um dia amado ainda viva, embora a única janela aberta seja cessar os olhos para assim encontrar o que ainda pulsa em algum jardim dentro da alma.

Hoje, no reviver das estações, notam-se os capítulos passarem, e assim, surge a conclusão.

Os homens parecem esquecer os seus próprios males, mas padecem junto a eles até o fim. Tudo adormece com o tempo, mas nada se apaga. A alma tende a não mais chorar, mas a biblioteca está sempre aberta, convidando a todos para mais uma visita. Em qualquer momento independente, pode-se ir até lá folhear os livros da memória, certamente tão viva quanto à imagem construída no presente que agora se vê. A frieza é predominante, mas o calor, o destino e seus sinais estão sempre à espera do primeiro deslize do hoje, pronto para pulsar novamente junto ao simples gesto em se querer reviver ou morrer novamente no já falecido, ou em se querer renascer e concretizar o que lhe é designado, sempre antes tarde do que nunca.

CAPÍTULO 66(integral)

O luar iluminava o céu estrelado. Diversas luzes brilhavam no manto noctívago. Nuvens não eram vistas. Como as mansões da vizinhança eram localizadas bem ao longe, nenhuma muralha interrompia o véu das estrelas, que parecia driblar a distância e assim se aprofundar em tudo o que os olhos nunca alcançariam. Só mesmo uma linha do horizonte finalizava a jornada, dando lugar à impressão da entrada em um outro planeta. Os campos verdes agora eram campos escuros. As flores dos arredores, criadas em um jardim riquíssimo, apresentavam uma cor também enegrecida, mas era claro que muitas eram vermelhas, rosas, azuis… Já a brisa roçava levemente os corpos. Um leve frio da noite tocava a pele. No entanto, a alma queimava estranhamente e assim, um calor sedento nascia.

Sentindo o ar lhe faltar um pouco do peito, Maria Lúcia levantou-se, vestiu um casaco de noite leve, e caminhou em direção à janela, que se posicionava ao fundo do seu vasto e riquíssimo quarto. A mulher olhou para Torquato e sentiu um vazio. No profundo do seu inconsciente, que revolta irrompia no desassossego de seu peito! Viver com um homem sem nunca amá-lo! Que triste! Já nas aparências, Maria Lúcia pensava ser o mais correto. Sim, era Torquato um homem de posição e acima de tudo, tradicional. Ela, como uma mulher de respeito, deveria ter um homem conservador e de representação social ao seu lado. Sim, era o seu desejo e acima de tudo, querer de seu pai. Olhou novamente para o seu marido e pensou:

-Se realmente tivesse me amado como dizia, nunca teria partido. Teria sim respondido a pelo menos uma cara…… ou será que algo havia ocorrido? – refletiu.

Caminhou lentamente, em busca de ar junto às janelas. Sentia-se estranha, ainda pressionada. Que dia tivera! Deus do céu! Como isso a atormentava.

Caminhou ávida pelo desconhecido. Abriu as cortinas e o conforto do vento acalmou a fervura de sua pele. No entanto, seu interior queimava-se. A mulher passava a mão no peito, respirando profundamente. Abriu as dobradiças e ficou a fitar a paisagem fabulosa. A noite era linda, misteriosa e acolhedora. Seu desejo era mergulhar no manto estrelado e lá ficar, até o momento de se sentir rendida a uma batalha.

Minutos se passaram. Maria Lúcia assustou-se ao ver um rapaz caminhando pelo campo verde. A imagem andava lentamente, com os braços cruzados, como se estivesse observando a região.

A Villago ficou por segundos tentando reconhecer quem seria. Mas, era escuro e estava difícil em ver a fisionomia da pessoa. Quem seria?

Segundos se passaram. A imagem caminhou em direção a um local onde as luzes da mansão já podiam clarear o seu rosto. Sim, Lúcia podia ver que se tratava de um homem. Mas, quem seria?

Ele ainda permanecia de costas.

Tempo.

Agora era fácil observar por inteiro a pessoa. Lentamente, o homem virou o corpo, de modo que Maria Lúcia pudesse vê-lo.

Lúcia viu um homem, sim, um homem belo. Notou seus cabelos escuros e sentiu-se tocada pelo seu rosto. Sentiu-se atraída por ele, de alguma forma, a ponto de não conseguir desviar os olhos da imagem.

O homem vestia uma calça escura e uma camisa entreaberta branca, como se estivesse pronto a se despir ou o tivesse interrompido por algum motivo. Quem seria? Maria Lúcia de fato, não conhecia, mas também no momento não temia, já que de uma forma ou de outra, sentia a necessidade de ficar apenas observando.

O homem olhava para a casa. Exibia uma expressão de satisfação. Não sorria, mas era notável que estava bem. As mãos, cruzadas atrás das costas, na altura dos quadris, mostravam que o homem estava em paz com o ambiente e consigo mesmo. E tal tranqüilidade foi passada, estranhamente, para Lúcia, que acompanhou os passos do persongem, seus gestos e suas sensações. Sentia-se atraída por ele, mas não sabia que tipo de atração era aquela.

Sem reconhecer o que sentia, a mulher saiu de seu quarto, desceu a escadaria e caminhou em direção à porta, a fim de ver o homem mais de perto.

Estranhamente, não sentia medo, em absoluto. Será aquele homem um dos empregados? Não…mas, então, quem?

Chegou até a janela da sala, e assim, pode ver o homem mais claramente. Seus olhos notaram a beleza do corpo e rosto. A imagem acalmou a mulher, que por instantes, esqueceu-se que se tratava de um desconhecido nas dependências de sua casa. Não sentiu medo e também esqueceu-se que jamais andaria vestida com aquele traje na mansão, a qualquer hora do dia, a não ser em seu quarto. Algo mágico e inusitado fervia.

Na verdade, o tempo parou e as questões externas dissiparam-se com o acontecimento. Maria Lúcia não tinha perguntas, quanto mais as suas respostas.

Repentinamente, o homem virou o corpo em direção à escuridão dos campos verdes. A filha mais velha do Villago o seguiu.

Caminharam por alguns instantes. No lago, grandioso e rico, em um dos pontos de destaque da propriedade, o homem parou. Lúcia escondeu-se atrás de uma árvore, e ficou o olhando, guiada por uma força estranha, uma força sem nome.

Sob os olhos de Maria Lúcia, o homem tirou a roupa lentamente. Viu um corpo belo, que visto em alguns ângulos parecia ser, estranhamente, de alguém muito jovem. Em outros, de um homem robusto, forte. A mulher assustou-se com a ousadia da pessoa, mas não resistiu, na medida em que seus olhos não queriam deixar de fitar a imagem.

O homem entrou no lago e começou a nadar, lentamente. Os cabelos molhados, curvavam-se delicadamente ao redor da cabeça. A pessoa sorria em alguns momentos, como se fizesse parte das águas, de toda aquela Natureza. Ao observar, Maria Lúcia sentiu uma vontade que ela não sabia definir. O que seria?

No ímpeto e no auge do encontro, o rapaz virou o rosto, ergueu o corpo, de modo que metade ficasse para fora da água e seus olhos se encontraram com os olhos de Lúcia. A mulher espantou-se, ainda mais com a provável possibilidade do homem ter notado a presença dela. Sentia-se envergonhada e assustada. Já ele a olhava seriamente, no entanto, expressando um olhar convidativo. Era um olhar penetrante, magnético, como se a pessoa dominasse a situação, sabendo o que acontecia, desde o começo ao fim. Era um olhar esperto, vivo, ávido por algo, ávido por uma conexão.

-Não se renda mamãe, não se entregue!- ouviu um sussurro de uma menina que não estava ali. A voz parecia ser de Anita.

Maria Lúcia, nervosa, correu em direção a mansão. Subiu as escadas e deitou-se em sua cama. Seu sangue fervia e as pernas estavam fragilizadas, mas ela não compreendia o que tal sensação significava.

Até pegar no sono, pensou no homem que tinha visto e só depois de muito devaneio, passou a perguntar novamente a si mesma, quem seria tal pessoa. Quem seria? Será um sonho que tivera?

A noite se foi para ela, sem resposta.

CAPÍTULO 5(integral)

O sangue Villago jorrava poder há muito tempo nas esquinas escuras daquele lugar. As mulheres, odiadas e admiradas. O homem, ditador.

Maria Lúcia Villago Salles, conhecida na comunidade pela frieza e por nunca sorrir, resumia as finesses, vaidades, angústias e a moral dos Villagos, o grande clã. Costumava se vestir sempre de forma discreta. Falava da educação como se os livros lidos, a boa postura, a religião católica levada ao extremo e a tradição dos costumes fossem os principais ingredientes de uma vida digna e respeitável. O padre Fidel Amaro era o único que lhe arrancava palavras, quando a mulher, em sua rotineira passagem, julgava-se dona de pecados e procurava o confessionário, como uma marcha obrigatória em direção à boa moral e aos bons costumes. No entanto, tudo era uma forma de proteger-se do mal que havia tido. A filha mais velha da família destinava-se a consumir-se, escondida em roupas escuras, expressão pálida, em uma vida totalmente ausente. Ausente de si mesma. Ela não compartilhava do seu próprio eu, do seu próprio corpo. A mulher havia partido com aqueles dois jovens.

O industrial Basílio Villago sofria de saudades, excesso de arrogância e de seu indiscutível apelo à religião. A perda do filho e a sua crueldade em se tratando do giro financeiro do mundo lhe davam uma alma fúnebre, e conseqüentemente, um destino doloroso às damas e senhoras daquela casa. Era ele um homem excessivamente religioso e apaixonado pela imagem santa de Nossa Senhora de Fátima. Servidor do Senhor, padre, até desistir do ofício ao se apaixonar pela esposa Tereza, conservava dentro de si um forte ideal de salvação para os pecados humanos. Ele julgava grande parte dos homens e mulheres detentores de pecados mortais, e por isso, não se culpava ao roubar, matar e enganar, ricos ou pobres, em nome da punição à maldade do mundo, como assim considerava com fidelidade. O homem passava por cima de todos, diante de qualquer um, a fim de conquistar o seu ideal. Havia enriquecido ilicitamente. Era também portador das fraquezas dos homens. Era infiel, hipócrita e detentor de uma enorme fama. Os admiradores e as mulheres em sua vida surgiam como grãos de areia, comparável até mesmo a um exército obstinado a uma longa e ininterrupta viagem. Tereza sofria.

Tereza Raquel Villago, certamente, a mais pura e verdadeira alma da família, era essencialmente submissa, conformada e obediente. Amava demasiadamente Basílio. Era ela a única que os empregados sentiam-se à vontade para perguntar, ou até dividir idéias e segredos, pois os olhos e ouvidos da senhora estavam sempre abertos para uma boa conversa, independente da posição que tal pessoa ocupasse no seio da vida. E era esse o mesmo temperamento de Eleonora, sua mãe.

Devido ao inevitável da velhice, Eleonora flutuava. Vinte anos após o fato, expressava clausura em seu mundo. Os dias, manhãs e noites serviam-lhe para o alimento de uma loucura, nutrida pelas intermináveis perguntas em relação aos desfechos inexplicáveis, como também, às lembranças da felicidade vivida. Tinha a tristeza por ter vivenciado a filha dividir o seu homem com inúmeras mulheres, além de também conservar amargura pela perda dos netos. No entanto, era calma e conformada. Aceitava Basílio trair sua filha, pois era ela embebida pelo conservadorismo que prendia os laços daquela casa. Ela, então, aquietava-se diante da morte e não a temia, em razão da experiência um dia adquirida.

Maria Jacinta, a filha mais nova, antes carismática e rebelde, permanecia ao longe, no passado. Perdida nas esquinas envolta pelo vício da carne, ela assim emanava a dúvida na atmosfera: por onde andaria? Qual teria sido o seu desfecho?

Por fim, João Francisco, o estudante de padre, permanecia vivo na memória de todos que moravam na notável mansão. Era ele o dono da transformação e da morte de muitas outras almas que circundavam as ricas tapeçarias que adornavam o tablado do abrigo Villago. Era ele também o dono do sono profundo que no futuro transformaria uma vida. Era um rapaz rico ao mesmo que essencialmente pobre. E da fraqueza e da riqueza das coisas vivas e sabedoria eterna, existia Olga.

Olga era a empregada doméstica mais velha da mansão. Aos seus cinqüenta e sete anos de idade, era uma mulher calada, submissa, no entanto viva, visionária e extraordinária. Pessoa célebre, completa, poeta, protagonista! Era uma mulher humilde, mas conservava um requinte natural, digno de pessoas que nasceram com o brilho dos reis e rainhas, embora vestisse roupas surradas e desgastadas pelo tempo. Era uma mulher sem instrução, apenas alfabetizada, mas que, ao contrário dos outros empregados, tinha vocabulário e falava bem, assim como qualquer um dos integrantes do rico clã.

(leia o livro completo clicando nas páginas: “Remetente- parte 1″, “Remetente- parte 2″; “Remetente- Final”)

BONECA SOLTEIRA PROCURA…- O SERIADO

“Boneca solteira procura…”

EPISÓDIO 1

Balada, fim-de-semana!

Ligo o carro acelerada. A marcha da primeira engata para uma quarta. Preciso chegar a tempo, afinal, como sempre, estou atrasada. O pessoal combinou às 23h15 na pracinha, e já são 23h20. Bem, em 15 minutos devo chegar lá.

Hum, sinto-me extraordinariamente excitada! Não no sentido literal da palavra, mas na generalidade que o sentimento evoca. Talvez, hoje, seja uma grande noite. Talvez, à despeito da maré de todo fim-de-semana, esta seja uma balada especial. Talvez eu encontre “aquele” cara. Talvez eu conheça um homem que se apaixone loucamente por mim à primeira vista e que me trate feito princesa. Princesa!? À propósito, posso não mais me intitular como tal, pois à beira dos meus 30 anos, confesso que me enquadro certamente na figura balzaquiana com ares de rainha. Idéia inexata!

Meu nome é Agatha, de origem alemã. Vislumbrando minha face deveras bondosa, boa, como o próprio nome diz, deram-me tal título. No entanto, me calo diante do significado. Sim, sei que sou boa…mas, me sinto às vezes de certo demoníaca. Na verdade, me enoja ser boa demais. Eu deveria ser má. A trivialidade, o comodismo e a mesmice da “bondade” é algo cansativo, rotineiro. Mas, o que posso fazer? Aos quase 30 anos, confesso que nunca matei ninguém(risos).

Continuando….me chamo Agatha, e alguns me chamam de Ga. Estou com 29 anos, quase terminados! Seria este um dos motivos da minha atual e infinita tristeza? Sim, caro leitor! Os “vinte” chegaram ao fim, e dentro de 5 dias, farei os 30. Que desolação! Não somente pela idade em si, pois sei que a fatalidade dos primeiros fios brancos já desponta em minha testa. Mas, pela situação em si – esta é a que pega. Estou entrando na terceira década total, completa, geral…e todos os “mente”, solteira. E nada da minha história ser daquelas trintonas enxutas já divorciadas, como muitas das minhas amigas. Sou daquelas que já se considera rainha, sem ter sido ao menos princesa. Princesas se casam jovenzinhas com seus principezinhos encantados. Aos 22 já são até mamães! Não, definitivamente, meu passado não engloba tal capítulo. Aos 22, 25, 29, e agora aos 30, continuo na casa das disponíveis, às vezes eternas, pois o andar da carruagem só corre às pressas quando as primeiras ruguinhas despontam em meus olhos. Fazer o que!?

DOOLL2

E é assim todo o fim de semana. Por volta das nove da noite, interrompo a novela das oito ou o seriado de TV já pensativa sobre qual modelito usar. Cansada? Sim, estou. Mas ficar em casa!? Impossível. Sou viciada, assim como todas as bonecas – minhas amigas baladeiras de plantão. É assim que eu as chamo! Bonecas, Bonecas! No decorrer das letras, você, leitor, irá entender. Voltando, qual modelito usar? Nossa, já repeti dezenas de vezes as roupas e algumas nem me servem mais. Imagino que os olhares da balada me fitam e clamam: “nossa, essa aí não tira essa roupa!”. Tenho comido demasiadamente. Os meus quadris largos, minha barriguinha saliente e meu peito tamanho PP denunciam meu formato pêra levemente acima do peso. Hum, é sempre muito fatigante encontrar a roupa correta. Que seja a calça preta de plantão. Assim meu quadril avantajado fica às escondidas. Jogo um tom claro na parte de cima, meus seios crescem milagrosamente e pronto! Um saltinho básico. Alías, como sempre, preciso emagrecer! Mas, por hoje não. Balada, sem beber, esquece. É como comer chocolate diet, banana verde ou chupar bala com papel. Mas, segunda-feira tomarei aquela decisão! Ou perco 5 quilos ou ficarei dias e noites sem colocar os pés para fora de casa, como penitência.

São estes os pensamentos que me embriagam no caminho para a balada. Mas, antes, claro, buscar a Vanessa. Amiga de longa data e baladeira de plantão, mais uma boneca assumida. Toco a buzina, ela demora a aparecer sempre por uns 5 minutos, mas beleza, fico no carro procurando algum som dos anos 80, 90, afinal preciso me aquecer.

E lá vem ela, a boneca toda na passarela. Hum, já a vi com essa calça, mas nunca com essa blusa. É certo que ela hoje está querendo mostrar os seios. Está louca para pegar!

-“Oi amigaaaaa!”- diz ela, perfumada, maquiadérrima, entrando no carro, super animada.

Mas, antes que eu prossiga tal diálogo, permita-me a uma melhor apresentação.


Como dito, chamo-me Agatha, a talvez “boa”(risos), e estou para fazer 30 anos. Sou uma boneca assumidíssima. Assim como as outras das baladas. Sei que o leitor deve estar com uma interrogação em sua mente, mas, cá estou aqui para esclarecê-la. Somos, à noite, todas bonecas. Nos enfeitamos feito bonecas, cabelos, maquiagem, roupa, e nos vestimos todas iguais, praticamente. Somos produzidas em série na fábrica: bonitas, super arrumadas, e disponíveis, totalmente disponíveis nas vitrines. E qual seria a melhor vitrine? A balada, claro. É lá que as bonecas deixam a roupa séria de trabalho do dia de lado, se produzem com sensualidade, colocam a sombra preta para arrasar, chegam com ares de fatal, mas no fundo no fundo, querem mais é serem levadas para a casa, por algum príncipe mágico. E ainda somos como bonecas, pois vivemos na prateleira, ora saindo, ora voltando para a estante. Tudo depende de como eles, os homens e as circunstâncias, vão querer brincar conosco. A instabilidade homem-mulher dos dias de hoje é o pano de fundo. E assim, as bonecas fazem a festa. E há tudo quanto é tipo de boneca: boneca que está sempre na virtine só para ser observada, boneca que adora sair da estante o tempo todo, boneca que adora ser comprada por aquele gato que possui um super carro, boneca que não faz questão de absolutamente nada…etc….

Seria este um discurso feminista? Não, caro leitor, creio que a resposta é negativa. Em 2009, a superficialidade das noites das ficadas, drinks e fofocas impera. E para completar, além das bonecas, existem alguns bonecos também para falar a verdade. Mas, ao final, a máxima fica sempre exposta: “aquilo é mulher de balada né!?”….ou, “ora bolas, aquilo é cara de balada né!? Nunca ele vai te levar a sério!”.

CONFIRA OUTROS EPISÓDIOS: www.bonecasolteiraprocura.com



LUNÁTICOS E INSANOS

Naquela noite enfadonha, cansei-me das putas de plantão! Enfastiei-me da aparência, do cheiro, do modo, do corpo, da fala mansa e das embasbacadas faces de palhaça. Enojei-me das vagabundas e de suas bundas de ar fétido. Castrei-me e fiz do meu ventre um cego rumo ao impedimento de qualquer perpetuação. Do meu corpo, do meu modo, junto à minha criatura, puta alguma jamais há de fazer nome no compartilhamento do meu documento. Se sou tal e tal, tenho de ser eu tal e tal, e não a fulana de tal, beltrana de tal ou ciclana de tal.

Cansei-me das vadias a me bajular como o demônio zomba da cruz. Fatiguei ao dar o meu dorso como espelho ao dedo indicador das prostitutas que perfidam com tamanho engano.

E se algum dia alguma delas voltar a me gabar com aspas, se intitular boa samaritana e me propor um baile das putanas, mandar-lhe-ei todas de volta a vacaria profana, ao coçódromo das vaginas das antas e aos palácios das cadelas de ruas, tão sempre putas e nuas.

(EPISÓDIO 1  EM BREVE)

desenho3

POESIA


“Celebração às almas esquecidas”

I

Cavalgando pelos estrondosos mares,

os sonhos se despedem da maré embriagada.

Cólera infinita traz de volta, os heróis perdidos e talvez esquecidos,

trazendo dos séculos passados,

rainhas que brindam pelas almas que partiram.

II

Escuridão enfurecida preenche o clarão de sóis que iluminavam os espíritos, navegando pelas ondas duradouras de vidas e mortes.

Passado distante, medo constante,

farão das marés a sua glória,

daqueles que descobriram e já se foram.

III

A criança grita!

Voraz clamor que remonta o passado!

Diga adeus ao seu pai, diga adeus ao seu futuro esposo.

O mar engoliu as trevas e levou os seus sonhos para o abismo.

IV

Peça pelos futuros mares que os séculos jamais se esquecerão.

Cante esta canção- êxtase glorioso que cura e traz de volta aqueles que foram tão sempre queridos.

V

Vamos,homens!

Ergam cidades, clamem pela glória dos primogênitos.

Progresso constante dá boas vindas à fraqueza dos homens,navegantes insensatos se perdem em desejos em vão.

Eles se foram e construíram a memória esquecida nos mares, porém vivida pelos que usam a descoberta como própria autoria,

esquecendo-se que as águas engoliram corpos que buscaram o mundo, esquecendo-se que o mundo vive devido ao vigor de tais corpos.

VI

Sábios são os que remontam a trajetória esquecida.

Glorifiquem pelo heroísmo perdido- são os sonhos que brotaram nas calorosas ondas,

incêndio reprimido pelo poder das terras.

VII

Histórias não contadas foram engolidas pelos demônios dos escuros mares.

Enterraram a bravura de nomes não falados.

Perderam-se entre as ondas seculares.

VIII

O grito é ouvido!

Quem esta por pedir ou chamar?

Será talvez o desesperante choro do espírito que escapa das ondas que a enrederam e a levaram,

para o fundo dos mares,

para o eterno esquecimento.

VIII

Sua alma corrompeu-se por aqueles que roubaram a memória dos verdadeiros heróis.

Seu espírito envileceu-se por aqueles que furtaram o direito seu de conhecer e glorificar o passado.

Rainhas apagaram os nomes que brotaram coragem,

coragem que deu ao mundo o antes improvável.

IX

Até que chegue o fim,

os homens ousarão tornar os maiores em menores.

Poderemos louvar os olhos que talvez se dissimulem,

Poderemos obscurecer a percepção aos olhos da verdade.

Fragilidade que os fez se calarem,

calados aos olhos dos murais das conquistas.

PESSOAS

Feitos um para o outro, assim nasceu eu e você,

mas, não apenas eu e você ou alguns iguais.

Vieram para a guerra muitos de nós, e assim fez-se eles, os outros, fez-se as batalhas, as coisas inerentes e o destino….

para provarmos o gosto do verbo e sua conjugação, e fazer jus a nossa íntima condição,

para viermos e dar a luz ao objeto camaleônico ser humano.

Conjugamos VIVER, e façamos do presente do indicativo, a justificativa para tanta espera,

a espera que indica esperança, de um ensolarado amanhã e um incerto mais certo e ditoso,

a espera que caminha nas pedras das encostas, nos muros das guerrilhas, nas curvas do tempo, na fusão dos distintos sonhos e de nossas inúmeras tentativas.

Carpe Diem

E a cada manhã,o universo se altera, não apenas o meu, mas também o mundo que o cerca.

Pode ser o mês três, diz quinze, onze ou doze. Não importa! Coma apenas mais um doce!

Pode ser o mês em que estás vivendo hoje nesses tempos, mas pode ser o dia da sua morte em tempos futuros.

O presente, hoje, pode ser a morte de amanhã. Vamos, então, para o longe, pois o mundo tem muitas manhãs.

Ame o agora! O presente é infinito! Pois o destino escora, a incerteza como mito!

Vamos brincar hoje, não daqui a algum, pois talvez deste hoje, daqui a algum, já não sobre mais nenhum!

Embarcação

Era assim que eu a via,

esplendorosa em toda a magnitude do seu andar…

era um andar calmo e cintilante, ao passo que se unia as estrelas e se fazia amar, como uma aurora que desponta em um horizonte,

como um desejo que faz amor com os sonhos!

E ela assim caminhava, sem pensamentos, outrora ventos….passadas lembranças que ousavam falecer a sua veste e a iluminavam para uma dança de um futuro.

Vi seu corpo esmaecido junto a margem do mar…pés pálidos e calmos, soltos junto aos versos que despontavam das ondas,

ondas delas, ondas minhas que nos traziam histórias.

E assim, eles chegavam em suas embarcações,

alguns felizes, outros tristes mas todos vivendo por me ver existir, e nos ver existir.

Eu e ela,

E enquanto o nosso futuro se desenhava, a nossa memória se construía.

Quem eram aqueles? Porque voltavam: Porque nasciam?

Porque faziam parte de nós e de toda a nossa loucura?…loucura dela rogada, rezada por nosso anfitrião.

Nosso anfitrião…aquele mar de águas salgadas, aquele mar gélido que nos fazia chorar, aquele mar em chamas que nos fazia amar e prender o correr do tempo.

E eu era dela e ela era minha e ninguém mais havia,

A não ser os que chegavam em suas embarcações,

A não ser a veste azul que umedecia a nossa realidade.

E nós éramos deles, sem ser de ninguém pois nada havia…apenas a morte fluía e a vida vivia.

E eu era dela, e ela era minha….

É você minha imagem,

É por você que ainda digo

e repito: é você minha imagem…é você, saudade!

AMOR

O Amor é como tu, criatura!

Pequeno, calado, explosivo, gigante!

O Amor é desavença, e assim sendo, falece. Há amores que perduram, mas que sugam, ou nos entregam. Seria fácil saber só amar, e não ter que amar! Se temos, devemos. Se somos, apenas existimos.

Neste bolero encantado, queria te fazer feliz sem moradia, pois o amanhã é tão inexato, assim como qualquer garantia.

Mas, qual é o preço de um talvez insucesso? O triunfo deste instante! O que não sei, talvez eu não viva, pois sei dos ponteiros que fito neste agora, ah sim, a maior garantia.

E neste hoje, carrego em mãos a única autêntica e verdade essência. No balanço do teu corpo, some até o som do meu pensamento e irrompe a morada sagrada. Extasio-me ao só olhar para ti: vislumbrar como uma forma divina única.

Lindo amor – és o resumo da procura, resposta, e da aparição de um fenômeno intitulado Eternidade.

Como uma tela, pinto-te e te propago. E neste agora, o minuto transmuta-se em séculos.

Pergunto-me:

“ E qual seria o sinônimo deste caminhar e continuar por este labirinto sem saída?”

E

Respondo-me:

“ Uma fome sem garantia, viva, intrínseca, bela, involuntária e felina.

E se o amanhã hesitar, só o sol irá falar. Desdenho!

Pouco me seduz a insegurança do despontar dos próximos ponteiros. Que ele se suicide ao lado de seu rico leite: a incerteza.

O Amor é como tu, criatura! Sem garantia. Sem saída!

O Amor é como tu, criatura! Sonho! Vida!

És o Dom do meu dia.


Nosso talvez amor…

A despedida pode ser longa, mas não duradoura. O beijo pode ser ardente, mas não inesquecível. Você pode ser o meu amor, mas também pode ser passageiro. Me ajude meu anjo, ou talvez, me entregue ao diabo. Me faça chorar, ou me faça morrer e ser feliz.

Feliz….queira amar!

Inquieto, sereno, obscuro, tranqüilo, verdadeiro…o nosso amor que rola entre as chamas.

Ardentes de pensamentos, ardentes de emoções! Livres de um destino fechado, abertos para tudo o que queremos pensar e sentir. Matamos os outros, somos únicos e o Universo nos abriga. Façamos da noite o nosso guia infinito, eterno, mágico, verdadeiro, deveras autêntico.

Me faça sentir ou me faça esquecer. Deus poderia nos salvar ou apenas nos matar. Não escute a quem te aflige, ame a sua emoção.

Nosso talvez amor pode ser ou não ser, claro, poético, verdadeiro…irreal.


Tu, Meu palco…

Ao som do luar deste céu estrelado,

Fito teu corpo ansiando tua espera,

Nesta noite me entregarei a tua presença,

Como uma valsa em um Baile Encantado!

Seria possível propagar as horas em infinito,

A fim de te trazer junto ao meu Eterno!?

Para assim no itinerário no Sempre ficar,

Junto ao balanço de teu rico deleite.

Se a realidade hesitar ao concretizar

E trazer a chama somente em meu pensamento,

Farei da imagem pensada em algo sem fim

Fiel ao êxtase da vida, e tão nunca desfecho.

E nesta espera a qual fim não há,

Por mais que esteja presente irei sempre ansiar,

Por uma noite a mais de encanto e fantasia,

Para no sempre estar, para no sempre te encantar.

Fiel e entregue serei ao teu amor,

E neste céu estrelado finco a profecia,

em te deixar morar junto ao meu Cenário,

e na infinitude eterna do meu Palco!

REIS E RAINHAS!

(post dedicado aos “reis” e “rainhas” miseráveis que vivem no subterrâneo da hipocrisia da sociedade)

A CHANCE

O que era preciso para ser ouvido pelo rei daquela cidade? Como mostrar ao monarca que o pobre homem tinha o remédio em suas mãos?

Esta era a pergunta freqüente nos pensamentos de João.

João era um homem nascido na pobreza, dotado de uma humildade característica de sua classe. Era um cidadão que realizava um trabalho muito simples. Consta que nos fundos de sua pequena casa, o homem fazia remédios e os vendia para pouquíssimas pessoas. Gente pobre, lutadora, que apesar da cara simples e aparência quase de um mendigo como a de João, acreditava nele.

Certo dia, o pobre homem leu no jornal da cidade que o rei sofria de saúde. Uma terrível e ainda incurável doença afligia o sangue do monarca.

Honrado de sua qualidade de criador de remédios, e acima de tudo, preocupado com o bem-estar do rei, João passou tardes, dias e noites em claro, incontáveis, afim de descobrir uma fórmula química que assim pudesse curar o poderoso rei.

Após muito estudo, pesquisa, e usando como ferramenta primordial a perseverança, a determinação, João descobriu a fórmula correta que combatia a doença do rei. Era um remédio milagroso, nunca antes visto naquelas redondezas.

Certo de seu achado e tomado pela coragem, João fez sua pequena muda de roupas, pegou o remédio em suas mãos e partiu para a viagem.

Caminhou pelo deserto. Enfrentou as tempestades de areia. Esteve também frente a frente com o verde das densas florestas, e conseqüentemente, de suas chuvas avassaladoras. E após muito andar, chegou aos portões do Palácio.

Consta que dois enormes guardiões posicionavam-se na frente dos portões do Palácio. Eram homens fortes, seguros, quase intransponíveis. Mas, a imagem não amedrontou João, pois o pobre homem tinha a determinação em seu coração. Caminhou em direção aos guardiões e pediu para entrar.

Sua entrada foi recuada pelo simples fato de João se vestir mal, ser pobre e não ser conhecido por lá. Afinal, quem seria aquele homem? Como tinha a audácia de mesmo sabendo que era um estranho no ninho, chegar e dizer que tinha o remédio que poderia curar o rei?

Que absurdo! Que homem ousado!

João tentou por diversas maneiras fazer com quem alguém o escutasse. Mas, ninguém no Palácio lhe deu ouvidos. Tentou outros portões, fazer amizade com as pessoas que nas redondezas caminhavam, mas nada adiantou. Era um desconhecido e não tinha a fisionomia de alguém que poderia oferecer a cura do monarca.

Tentou enviar cartas. Enviou inúmeras contendo a receita do remédio. Mas, todas elas acabaram sendo rasgadas.

João tentou e tentou muito, guiado por uma persistência raramente vista.

O rei adoeceu cada vez mais. Seus últimos dias de vida estavam contados.

Determinado, o pobre homem pegou uma folha de papel e escreveu uma história, que entre uma palavra e outra, continha a fórmula do remédio. Fez uma reza especial e transformou a carta em um pombo.

O pombo entrou no Palácio e junto ao leito do rei, transformou-se na carta, na história pelo qual João tinha escrito. O rei leu a mensagem e mandou que a receita fosse preparada imediatamente. Tomou a fórmula, e assim foi curado. O milagre havia acontecido.

Feliz, o rei procurou pelo autor da história. Quando o encontrou, perguntou:

-“ João, porque não me deu essa fórmula há mais tempo antes? Quase morro! Porquê?

-“ Sua Majestade, eu tentei, mas ninguém me deu uma CHANCE!”

João tornou-se o médico oficial do Palácio e chefe de medicina na cidade. Em razão de sua inteligência, coragem, esperteza e talento, milhares de vidas foram salvas.

NOITES

I

Estelar imagem funde-se aos noturnos espíritos.

O carro é ligado.

O velocímetro parte para a final viagem, do corpo embriagado que o domina.

Silêncio! Eles estão a dormir.

Ponte sagrada, viagem ditosa, porém errônea.

II

Ruas vazias partilham o tédio noctívago com almas que tentam viver.

Laços assombrosos enfeitam a prostituta.

Sorriso felino traz desejo, satisfação e morte.

Venha, a doença o agarrará. A noite lúbrica te fará partir.

Mestre solitário – diga adeus a sua família.

III

Ratos povoam os bueiros.

O pequeno o come. Fome maldita indestrutível!

A mãe caiu na vida e não voltou para te buscar.

Silêncio! Eles estão a dormir.

IV

Extenuado destino, a velocidade soa um terremoto.

Bares assaltam as perturbadas mentes.

O carro bate e jorra sangue no confim da noite.

Escondam-se! Dionísio espreita as suas memórias atormentadas.

V

Sombras impuras apelam para as portas que se fecham ao pequeno faminto.

Está frio, o céu é o único abrigo.

Um êxtase noturno nos traz inspiração com destreza.

Oh, poetas! Porém somos pegos pela solidão.

Dormir não podemos.

O suicídio nos tenta.

Eremófilos somos, que como eremitas, percorrem lentamente o abismo escuro para encontrar luz.

VI

Silêncio! Eles estão a dormir.

VII

A menina dorme, mas do outro lado do muro,

as outras pequenas sorriem para os carros.

Pernas à mostra se equilibram para a idade enganar.

A boca manchada de tinta vermelha convida,

mas esconde a infância perdida.

VIII

Vastas ruas noturnas por onde passam,

deixam marcas que o luar quieto ilumina.

Silêncio! Eles estão a dormir.

IX

O velocímetro dispara.

Corpos jovens brindam a ilusória liberdade.

A Heroína é a grande heroína da noite.

Delírio esparge uma loucura tentadora.

Apostaram a vida na curva da esquina.

Uma foi embora, o outro perdeu-se no caminho,

pois as pernas se despediram e os olhos cegaram-se.

X

Devaneios pré-meditados realizam a fuga por detrás da janela.

Corra, os corpos se escondem no escuro.

Ninguém os verá, o seu destino mudará.

Vamos, coragem, fuja da esnobe vida.

A noite calará os seus passos.

A manhã será outra.

Silêncio! Eles estão a dormir.

XI

A noite se faz de uma infinita morada,

para a alma que aprecia as estrelas mágicas.

Talvez estejam pedindo o seu amor,

talvez queiram esquecê-lo.

Silêncio! Eles estão a dormir, dormir, dorm…

XII

Venha, noite amiga!Venha, noite amiga! Venha, noite amiga!

Venha, noite assassina! Venha, noite embriagada! Venha, noite viciada! Venha, noite testemunha! Venha, noite silenciosa! Venha, noite inspiradora!

Venha, noite, apenas venha!

Morfeu abrigará os tranqüilos espíritos que descançam,

mas acordará os destinos cruéis que sofrem e fascinam os mistérios da noite,

deleite extravagante..convite ameaçador!

Silêncio! Eles estão a dormir, quietos a sonhar,

incertos ao morrer e ao viver!

cvc

Ana

É tempo,

de sugar sua boca em um vermelho sangue,

de penetrar em teu maior sentido,

de te fazer querer pelo simples seduzir.

Desejo,

Olhos de desejo,

É ela, em seu balançar, em seu nefasto modo de andar!

É ela, Ana, paga para gastar, oferecer, mulher pra ter!

II

Em meio ao deleite noctívago de tua espera,

surge ela, a bela,a puta,a vadia, a sinistra,

embebendo-se do sabor rico de tuas notas.

Ana irrompe e te aprisiona,

No calor de teu sussurro mudo.

III

Ana tem 17.

Ana é da cidade,

Ana se fez ausente e perdeu-se desde os 8,

Ana é vasta nas estradas do currículo das ruelas,

Ana é prazer na carne das mentes e corpos noturnos, que se extasiam de seu vinho e de seu suspiro vindo do lixo.

Ana é quente, muito ainda ardente, mas tão diária doente, na clausura de seu mundo, na brevidade comprada de seus lençóis.

Ana é ainda carente, carente de água, de terra, de mar, de sol, de sentimento, de sentido, de destino.

Embora ainda sejam em seus primeiros anos, Ana é velha, patética, porém mágica.

Nas curvas do corpo de Ana, é ela tão bela, embora tão gasta.

Como um poema de estrofes infinitas, a profusão de mãos em seu corpo dedilha as notas de uma completa orquestra ou de um vale cintilante à la abundância das estrelas da via láctea.

IV

Ana é paquera, é olhar, é sedução, é álcool, é pó, é emoção, é transa!

Ana é diferente, é fome, é curvilínea, é cheiro doce, é cabelo contra o vento.

Ana, incrivelmente sedutora.

Ana te fisga, Ana te pesca.

Na borbulha de seu alento, ela governa e reina absoluta nos calçados dos apáticos.

E na apatia de um seco corpo, Ana irrompe feito água e sacia o desejo e colore, e no seguinte, corroe-se.

E neste concerto, ao som das notas verdes na gaveteira, Ana some aos poucos.

A usada transmuta-se em marcada.

Na poesia nefasta de sua envolvente e hipnótica dança, no balançar de seus quadris, as estrofes fincam em sua pele.

Ana sente dor, Ana chora!

Ana, sendo, é palco.

Ana serve de tablado aos pés que a compram.

Ana é cenário de crime, da face ensangüentada, da sombra em mau-trato, do vício, do desdém e da cegueira de outrem.

V

Ana é simpatia, é suicida na janela de seu quarto, lá junto aos boeiros do Centro e dos ratos no cimento.

No devaneio de seu cinzento momento, é ela, a bela, o rio de teu despejo.

E na carne de seu desassossego, ela te alivia, te cria, te propaga!

Faça sexo com ela, coma o seu passado, presente, futuro, entre em coma!

Ana é objeto, Ana é uso, Ana é corpo, Ana é seio, Ana é um documento.

Ana é hoje. Ana nunca foi.

Ana não veio de bosque algum.

Ana nem nasceu.

Ana, simplesmente é, foi cuspida de alguma esquina.

Ana é só corpo.

Ana não pensa. Ana só faz. Ana vegeta, não respira, só suspira, para o teu bel prazer.

Por onde andam os filhos dos miseráveis?

Aos olhos de outrem, Ana foi esquecida no bem-vindo do cartório de um sobrenome.

Ana só tem título de Ana…e seu segundo nome?

Vadia. Ana Vadia. Ana Do Preço.

Ana Da Garantia Noctívaga.

Ana perdeu-se nos 8, e entre as ruelas de sua suicida existência, Ana fez 17.

VI

Ana existe e ainda é ponte.

Cuidado com as curvas e pernas de Ana!

Ana é assassina em seu venéreo e contaminado sangue.

Ana se deita e seduz.

Ana se esquivou de Ana.

Os lábios de Ana assustam, no prazer do pago ponteiro de sua companhia.

VII

Ana não sente.

Ana só faz. Ana não é humana, só mercadoria.

VIII

E no vácuo de uma escura esquina, ouve-se o estilhaçar de um espelho.

Ana contempla seu semblante no vidro. Ana só quer ser humana. Ouve-se novamente o estilhaço……

O que é?”-pergunta-se.

“……É o grito de Ana…….. clamando por socorro aos ventos!”

RESPOSTA

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