O REMETENTE
Em meio a um ambiente atemporal, a bela história de “O REMETENTE” narra a vida de 25 personagens envoltos em um cenário misterioso, mítico, rude, ao mesmo que melancólico e poético. Ao som de uma valsa, o livro diferencia-se ao apresentar a trajetória de duas protagonistas: mulheres em busca de um ideal. O surrealismo brinda e oferece ao leitor uma profunda reflexão sobre Deus, Vida, Morte ou qualquer essência que enleva a vida à sua primeira categoria.
Os 111 capítulos revelam um drama familiar, que se transforma com a chegada de emblemáticos visitantes na célebre mansão Villago. O mistério desenrola-se do início ao fim, trazendo um desfecho incrível e surpreendente na vida daquela empregada, do pai autoritário, das duas filhas e do filho morto.
Ao escrever as 400 páginas de “O REMETENTE”, dediquei-me a decifrar com cautela e pluralismo interpretativo, os mistérios entre o céu e a terra. Será preciso muita atenção do leitor, pois qualquer detalhe é sinônimo de grande revelação.
Existe um Deus? Quem é a Morte? O que o passado pode trazer para o hoje? Existem fantasmas ávidos pela nossa procura? O que é o fanatismo religioso? O que são os sonhos? O Amor? E qual seria o fim de tudo isso? O que vem a ser o amor-próprio? Os sinais? Ou ainda, a entrega, a resignação? Porque morremos e porque vivemos? E principalmente, porque é tão frágil a existência: a imperfeição não é somente humana, mas também Divina. Deuses e Homens são iguais em suas fragilidades, pois uns completam os outros, na medida em que se criam, fundem-se e se limitam.
(leia o livro completo clicando nas páginas: “Remetente- parte 1″, “Remetente- parte 2″; “Remetente- Final”)
Trecho de “O REMETENTE”:
CAPÍTULO 64(parcial)
Sim, eles estavam lá. O vasto verde dos campos religiosos impeliu o seu governo e fez das sombras seus personagens principais. Era tal presença dotada de um aroma do Universo? Eis aí a dúvida, envolta por resposta que só no mais célebre temporal tardio irromperá.
Os visitantes adentraram no cenário. A mansão continuava estranhamente vazia. Olga sentiu receio de uma provável repulsa do industrial.
CAPÍTULO 60(parcial)
O mundo iluminou-se por momentos. A vontade em se ficar olhando era intensa. Era lindíssimo, sendo educado em um primeiro momento. Incrivelmente sedutor e dono de uma fórmula humana raramente vista. Continha, em se tratando do aspecto físico, uma mescla estranha de infância e maturidade. Em um gesto, parecia ser uma criança indefesa à procura de consolo, em outros, parecia ser um homem feito, dotado de um forte apelo sexual e determinação.
Que incrível! Quem era?
CAPÍTULO 58(parcial)
Deus julgou em seu mundo e assim fez nascer a criatura, vinda de um sol forte de um norte, disposto a clarear e umedecer os campos verdes de um gramado de um cemitério. As tumbas renasceriam, na medida em que o calor do corpo e dos hormônios produziram chamas. O fogo tenderia a se espalhar, forte, decidido, rei e modificador. Que forte mostrava-se a Natureza! As muralhas e fortalezas seriam rendidas, destinas a servir a um sentimento maior. O corpo caminhava lentamente, exibindo a sua destreza em captar os sentidos até mesmo dos ares. As sombras tornavam-se maiores, na medida em que o mistério escondia-se em uma caverna escura e silenciosa. E como haveria de ser difícil entrar por aquela caverna. Como seria necessário uma batalha, um exército, uma arma, para assim se fazer maior e derrotar o que reinava em absoluto lá em cima ditando poder, glória e paixão. A fraqueza do semblante seria inerente a uma expressão forte, ameaçadora. Dois lados para um único. Várias faces em um só encontro. A vida entrando em um tribunal de júri, em um passeio sem volta, em um jogo sem regras, em uma floresta sem luz, em um tabuleiro de xadrez, em um álcool envenenado, em um sonho profundo, em uma alegria única, em um parque florido, em um vício, em um céu estrelado, em uma ponte diante de um rio, em um rio diante de sua correnteza. Diálogos finitos, no entanto, infinito ao sinal de apenas um comando. Não haveriam príncipes, princesas, duques, condes, leis, normas, e sim, o rei, vivo, robusto, apaixonante. O mundo apaixonava-se. Os livros ganhavam cor. Diversas cores distintas. O cemitério, mais tumbas. Os campos, mais vida. O coração, mais amor, mais entrega, mais renúncia, mais submissão, mais luta, mais obediência, mais liberdade. Mais paixão, muita paixão, carne, corpo, mente e espírito. Era tempo de sugar, de sugar-se. Era tempo de se ter, de ser, de viver por exclusivamente aquilo que se sentia, aquilo que se vivia. Tudo se tornaria possível, ditando ser o impossível como linha de frente de um fraco.
CAPÍTULO 45(parcial)
A velha estava nua, a pele branca, o olhar avermelhado. Os cabelos da mulher, esbranquiçados, longos, longuíssimos, tomavam conta do corpo do menino. O local estava frio.
Olga sentiu um horror pelo estômago.
O fantasma olhava para Olga, vomitava, ao mesmo tempo em que fazia o ato. Exibia a língua e mostrava as genitálias. O garoto, ensagüentado, ria e lambia a velha pausadamente. Ambos construíam uma cena em que pareciam animais dotados de uma sexualidade e ferocidade beirando a orgia nata de um templo demoníaco. Olga lembrou-se das histórias de Lúcifer que sua mãe contava. Ela, então, vislumbrou uma doença praticamente incurável na carne humana.
Olga passou mal. Sentiu vontade de expelir algo pela boca, mas as náuseas não pareciam ser suas, e sim, de outra pessoa. O fósforo apagou-se. A escuridão voltou a tomar conta do local. A respiração parou, dando lugar a uma voz de velha que clamava pelo seu nome.
- “Olga…”!
Esfaquearam-se os sentidos.
Tentou se acalmar. Pediu ajuda a algum tipo de deus na sua inexata definição de crenças. Virou as costas e desceu as escadarias do porão.
-“ Me deixe em paz…me deixe em paz!”- dizia, tentando espantar os espíritos.
Desceu as escadarias rapidamente, ao mesmo tempo em que sentia alguém passando a mão entre os seus cabelos. Uma gélida e áspera mão era a mensageira.
Olga sentia-se sufocada.
Saiu. Bateu a porta, trancando-a. Respirou fundo.
CAPÍTULO 1(integral)
Necessário dizer, ouvir, sentir e escrever. Conclui-se o término de mais um livro. É a hora do chá quente junto à janela da noite. É o momento do retorno ao princípio.
A brisa parece soprar ao sul, trazendo as noites que oferecem mensagens aos espíritos. Vê-se correr ao longe tudo o que se costurou nas vestes do tempo, e as imagens irrompem com sutileza junto ao aroma que venta junto aos pensamentos. Abrem-se as janelas das lembranças e as histórias renascem com magnitude, como paisagens deles e delas farfalhando com os lírios das marcantes memórias. O tom escuro da noite traz os anos que se foram, quando o momento guia ao que jaze, quando as saudades batem às portas.
Talvez tudo se perca na trilha envelhecida pela caminhada repleta de dores e dias de glória. Talvez tudo já um dia amado ainda viva, embora a única janela aberta seja cessar os olhos para assim encontrar o que ainda pulsa em algum jardim dentro da alma.
Hoje, no reviver das estações, notam-se os capítulos passarem, e assim, surge a conclusão.
Os homens parecem esquecer os seus próprios males, mas padecem junto a eles até o fim. Tudo adormece com o tempo, mas nada se apaga. A alma tende a não mais chorar, mas a biblioteca está sempre aberta, convidando a todos para mais uma visita. Em qualquer momento independente, pode-se ir até lá folhear os livros da memória, certamente tão viva quanto à imagem construída no presente que agora se vê. A frieza é predominante, mas o calor, o destino e seus sinais estão sempre à espera do primeiro deslize do hoje, pronto para pulsar novamente junto ao simples gesto em se querer reviver ou morrer novamente no já falecido, ou em se querer renascer e concretizar o que lhe é designado, sempre antes tarde do que nunca.
CAPÍTULO 66(integral)
O luar iluminava o céu estrelado. Diversas luzes brilhavam no manto noctívago. Nuvens não eram vistas. Como as mansões da vizinhança eram localizadas bem ao longe, nenhuma muralha interrompia o véu das estrelas, que parecia driblar a distância e assim se aprofundar em tudo o que os olhos nunca alcançariam. Só mesmo uma linha do horizonte finalizava a jornada, dando lugar à impressão da entrada em um outro planeta. Os campos verdes agora eram campos escuros. As flores dos arredores, criadas em um jardim riquíssimo, apresentavam uma cor também enegrecida, mas era claro que muitas eram vermelhas, rosas, azuis… Já a brisa roçava levemente os corpos. Um leve frio da noite tocava a pele. No entanto, a alma queimava estranhamente e assim, um calor sedento nascia.
Sentindo o ar lhe faltar um pouco do peito, Maria Lúcia levantou-se, vestiu um casaco de noite leve, e caminhou em direção à janela, que se posicionava ao fundo do seu vasto e riquíssimo quarto. A mulher olhou para Torquato e sentiu um vazio. No profundo do seu inconsciente, que revolta irrompia no desassossego de seu peito! Viver com um homem sem nunca amá-lo! Que triste! Já nas aparências, Maria Lúcia pensava ser o mais correto. Sim, era Torquato um homem de posição e acima de tudo, tradicional. Ela, como uma mulher de respeito, deveria ter um homem conservador e de representação social ao seu lado. Sim, era o seu desejo e acima de tudo, querer de seu pai. Olhou novamente para o seu marido e pensou:
-Se realmente tivesse me amado como dizia, nunca teria partido. Teria sim respondido a pelo menos uma cara…… ou será que algo havia ocorrido? – refletiu.
Caminhou lentamente, em busca de ar junto às janelas. Sentia-se estranha, ainda pressionada. Que dia tivera! Deus do céu! Como isso a atormentava.
Caminhou ávida pelo desconhecido. Abriu as cortinas e o conforto do vento acalmou a fervura de sua pele. No entanto, seu interior queimava-se. A mulher passava a mão no peito, respirando profundamente. Abriu as dobradiças e ficou a fitar a paisagem fabulosa. A noite era linda, misteriosa e acolhedora. Seu desejo era mergulhar no manto estrelado e lá ficar, até o momento de se sentir rendida a uma batalha.
Minutos se passaram. Maria Lúcia assustou-se ao ver um rapaz caminhando pelo campo verde. A imagem andava lentamente, com os braços cruzados, como se estivesse observando a região.
A Villago ficou por segundos tentando reconhecer quem seria. Mas, era escuro e estava difícil em ver a fisionomia da pessoa. Quem seria?
Segundos se passaram. A imagem caminhou em direção a um local onde as luzes da mansão já podiam clarear o seu rosto. Sim, Lúcia podia ver que se tratava de um homem. Mas, quem seria?
Ele ainda permanecia de costas.
Tempo.
Agora era fácil observar por inteiro a pessoa. Lentamente, o homem virou o corpo, de modo que Maria Lúcia pudesse vê-lo.
Lúcia viu um homem, sim, um homem belo. Notou seus cabelos escuros e sentiu-se tocada pelo seu rosto. Sentiu-se atraída por ele, de alguma forma, a ponto de não conseguir desviar os olhos da imagem.
O homem vestia uma calça escura e uma camisa entreaberta branca, como se estivesse pronto a se despir ou o tivesse interrompido por algum motivo. Quem seria? Maria Lúcia de fato, não conhecia, mas também no momento não temia, já que de uma forma ou de outra, sentia a necessidade de ficar apenas observando.
O homem olhava para a casa. Exibia uma expressão de satisfação. Não sorria, mas era notável que estava bem. As mãos, cruzadas atrás das costas, na altura dos quadris, mostravam que o homem estava em paz com o ambiente e consigo mesmo. E tal tranqüilidade foi passada, estranhamente, para Lúcia, que acompanhou os passos do persongem, seus gestos e suas sensações. Sentia-se atraída por ele, mas não sabia que tipo de atração era aquela.
Sem reconhecer o que sentia, a mulher saiu de seu quarto, desceu a escadaria e caminhou em direção à porta, a fim de ver o homem mais de perto.
Estranhamente, não sentia medo, em absoluto. Será aquele homem um dos empregados? Não…mas, então, quem?
Chegou até a janela da sala, e assim, pode ver o homem mais claramente. Seus olhos notaram a beleza do corpo e rosto. A imagem acalmou a mulher, que por instantes, esqueceu-se que se tratava de um desconhecido nas dependências de sua casa. Não sentiu medo e também esqueceu-se que jamais andaria vestida com aquele traje na mansão, a qualquer hora do dia, a não ser em seu quarto. Algo mágico e inusitado fervia.
Na verdade, o tempo parou e as questões externas dissiparam-se com o acontecimento. Maria Lúcia não tinha perguntas, quanto mais as suas respostas.
Repentinamente, o homem virou o corpo em direção à escuridão dos campos verdes. A filha mais velha do Villago o seguiu.
Caminharam por alguns instantes. No lago, grandioso e rico, em um dos pontos de destaque da propriedade, o homem parou. Lúcia escondeu-se atrás de uma árvore, e ficou o olhando, guiada por uma força estranha, uma força sem nome.
Sob os olhos de Maria Lúcia, o homem tirou a roupa lentamente. Viu um corpo belo, que visto em alguns ângulos parecia ser, estranhamente, de alguém muito jovem. Em outros, de um homem robusto, forte. A mulher assustou-se com a ousadia da pessoa, mas não resistiu, na medida em que seus olhos não queriam deixar de fitar a imagem.
O homem entrou no lago e começou a nadar, lentamente. Os cabelos molhados, curvavam-se delicadamente ao redor da cabeça. A pessoa sorria em alguns momentos, como se fizesse parte das águas, de toda aquela Natureza. Ao observar, Maria Lúcia sentiu uma vontade que ela não sabia definir. O que seria?
No ímpeto e no auge do encontro, o rapaz virou o rosto, ergueu o corpo, de modo que metade ficasse para fora da água e seus olhos se encontraram com os olhos de Lúcia. A mulher espantou-se, ainda mais com a provável possibilidade do homem ter notado a presença dela. Sentia-se envergonhada e assustada. Já ele a olhava seriamente, no entanto, expressando um olhar convidativo. Era um olhar penetrante, magnético, como se a pessoa dominasse a situação, sabendo o que acontecia, desde o começo ao fim. Era um olhar esperto, vivo, ávido por algo, ávido por uma conexão.
-Não se renda mamãe, não se entregue!- ouviu um sussurro de uma menina que não estava ali. A voz parecia ser de Anita.
Maria Lúcia, nervosa, correu em direção a mansão. Subiu as escadas e deitou-se em sua cama. Seu sangue fervia e as pernas estavam fragilizadas, mas ela não compreendia o que tal sensação significava.
Até pegar no sono, pensou no homem que tinha visto e só depois de muito devaneio, passou a perguntar novamente a si mesma, quem seria tal pessoa. Quem seria? Será um sonho que tivera?
A noite se foi para ela, sem resposta.
CAPÍTULO 5(integral)
O sangue Villago jorrava poder há muito tempo nas esquinas escuras daquele lugar. As mulheres, odiadas e admiradas. O homem, ditador.
Maria Lúcia Villago Salles, conhecida na comunidade pela frieza e por nunca sorrir, resumia as finesses, vaidades, angústias e a moral dos Villagos, o grande clã. Costumava se vestir sempre de forma discreta. Falava da educação como se os livros lidos, a boa postura, a religião católica levada ao extremo e a tradição dos costumes fossem os principais ingredientes de uma vida digna e respeitável. O padre Fidel Amaro era o único que lhe arrancava palavras, quando a mulher, em sua rotineira passagem, julgava-se dona de pecados e procurava o confessionário, como uma marcha obrigatória em direção à boa moral e aos bons costumes. No entanto, tudo era uma forma de proteger-se do mal que havia tido. A filha mais velha da família destinava-se a consumir-se, escondida em roupas escuras, expressão pálida, em uma vida totalmente ausente. Ausente de si mesma. Ela não compartilhava do seu próprio eu, do seu próprio corpo. A mulher havia partido com aqueles dois jovens.
O industrial Basílio Villago sofria de saudades, excesso de arrogância e de seu indiscutível apelo à religião. A perda do filho e a sua crueldade em se tratando do giro financeiro do mundo lhe davam uma alma fúnebre, e conseqüentemente, um destino doloroso às damas e senhoras daquela casa. Era ele um homem excessivamente religioso e apaixonado pela imagem santa de Nossa Senhora de Fátima. Servidor do Senhor, padre, até desistir do ofício ao se apaixonar pela esposa Tereza, conservava dentro de si um forte ideal de salvação para os pecados humanos. Ele julgava grande parte dos homens e mulheres detentores de pecados mortais, e por isso, não se culpava ao roubar, matar e enganar, ricos ou pobres, em nome da punição à maldade do mundo, como assim considerava com fidelidade. O homem passava por cima de todos, diante de qualquer um, a fim de conquistar o seu ideal. Havia enriquecido ilicitamente. Era também portador das fraquezas dos homens. Era infiel, hipócrita e detentor de uma enorme fama. Os admiradores e as mulheres em sua vida surgiam como grãos de areia, comparável até mesmo a um exército obstinado a uma longa e ininterrupta viagem. Tereza sofria.
Tereza Raquel Villago, certamente, a mais pura e verdadeira alma da família, era essencialmente submissa, conformada e obediente. Amava demasiadamente Basílio. Era ela a única que os empregados sentiam-se à vontade para perguntar, ou até dividir idéias e segredos, pois os olhos e ouvidos da senhora estavam sempre abertos para uma boa conversa, independente da posição que tal pessoa ocupasse no seio da vida. E era esse o mesmo temperamento de Eleonora, sua mãe.
Devido ao inevitável da velhice, Eleonora flutuava. Vinte anos após o fato, expressava clausura em seu mundo. Os dias, manhãs e noites serviam-lhe para o alimento de uma loucura, nutrida pelas intermináveis perguntas em relação aos desfechos inexplicáveis, como também, às lembranças da felicidade vivida. Tinha a tristeza por ter vivenciado a filha dividir o seu homem com inúmeras mulheres, além de também conservar amargura pela perda dos netos. No entanto, era calma e conformada. Aceitava Basílio trair sua filha, pois era ela embebida pelo conservadorismo que prendia os laços daquela casa. Ela, então, aquietava-se diante da morte e não a temia, em razão da experiência um dia adquirida.
Maria Jacinta, a filha mais nova, antes carismática e rebelde, permanecia ao longe, no passado. Perdida nas esquinas envolta pelo vício da carne, ela assim emanava a dúvida na atmosfera: por onde andaria? Qual teria sido o seu desfecho?
Por fim, João Francisco, o estudante de padre, permanecia vivo na memória de todos que moravam na notável mansão. Era ele o dono da transformação e da morte de muitas outras almas que circundavam as ricas tapeçarias que adornavam o tablado do abrigo Villago. Era ele também o dono do sono profundo que no futuro transformaria uma vida. Era um rapaz rico ao mesmo que essencialmente pobre. E da fraqueza e da riqueza das coisas vivas e sabedoria eterna, existia Olga.
Olga era a empregada doméstica mais velha da mansão. Aos seus cinqüenta e sete anos de idade, era uma mulher calada, submissa, no entanto viva, visionária e extraordinária. Pessoa célebre, completa, poeta, protagonista! Era uma mulher humilde, mas conservava um requinte natural, digno de pessoas que nasceram com o brilho dos reis e rainhas, embora vestisse roupas surradas e desgastadas pelo tempo. Era uma mulher sem instrução, apenas alfabetizada, mas que, ao contrário dos outros empregados, tinha vocabulário e falava bem, assim como qualquer um dos integrantes do rico clã.
(leia o livro completo clicando nas páginas: “Remetente- parte 1″, “Remetente- parte 2″; “Remetente- Final”)